Introdução de alimentos sólidos - por Dr.ª Mónica Pina

A introdução de alimentos para lá do leite materno faz-se idealmente quando o bebé está pronto para tal mudança.

Nem todos os bebés estão prontos com a mesma idade. Alguns, poucos, mostram esses sinais por volta dos 4 meses, a maioria por volta dos 6 meses, sendo que alguns o fazem mais tarde, até cerca dos 8 meses. Raramente uma criança não está pronta para comer nessa idade.

As recomendações falam de 6 meses porque, por essa altura, as reservas de ferro acumuladas durante a gravidez e parto começa a chegar ao fim. O leite materno tem uma quantidade de ferro pequena, que por outro lado é altamente absorvível pelo bebé... Só que não chega. O bebé é um ser em crescimento, com necessidade de bastante ferro para o seu desenvolvimento.

Como bem sabem as mães que já passaram por isso, os bebés mostram que estão prontos para comer através dos seguintes comportamentos:

- quando metem qualquer coisa na boca, já não põe a língua para fora (ou seja, perdem o reflexo de protrusão da língua, um reflexo de protecção das vias aéreas).

- sentam-se bem direitos sem ajuda.

- mostram interesse pela comida dos pais ou irmãos e já fizeram o clássico "furto de comida da mesa", que é tirarem qualquer coisa que está no prato ou na mão dos pais e levarem à boca.

Quando estes 3 comportamentos estão presentes, o bebé mostra aos pais que quer comer. E começa uma aventura de descoberta de sabores e texturas. É bom proteger o chão por baixo da cadeira da criança e esperar umas manchas aqui e ali. Faz parte do processo de descoberta, até porque para as crianças pequenas não há diferença entre explorar, brincar e comer.

Podem pôr uma colher na mão do vosso bebés, ou simplesmente deixá-lo usar as mãos, e permitir que explore e coma sozinho. Não há vantagens especiais em dar de comer à cirança, qualquer que seja a idade. Obviamente, aqui vale o bom-senso e os gostos pessoais, como em qualquer outra situação.

Para quem amamenta, pode ser importante começar este processo dando de mamar antes de oferecer comida. Várias mães referem, ao darem antes de mamar ao bebé, que a aceitação de alimentos novos e da própria comida é maior. Afinal é ainda uma introdução, um início, com o tempo a criança irá comer cada vez mais e mais vezes.

Quanto às quantidades, é bom não ter expectativas. Há bebés que comem um prato de sopa logo desde o princípio, mas a grande maioria contenta-se com pequenas quantidades. Para se tranquilizarem, fechem a mão do vosso bebé em punho. O estômago dele tem esse tamanho. Não cabe lá assim tanta comida, não é?

Que alimentos escolher?

Vejamos as recomendações da American Academy of Pediatrics, que me parecem muito sentatas:

1.Não há provas suficientes de que limitar a dieta da mãe durante a gravidez e a amamentação diminua o riscos de alergias: comam o que vos apetece.

2. Há provas que amamentar exclusivamente pelo menos 4 meses os filhos de pais alérgicos diminui o risco de dermatite atópica (infelizmente os estudos com 6 meses de exclusividade são poucos...).

3. Amamentar exclusivamente pelo menos 3 meses reduz um pouco o risco de asma, mas não nos filhos de pais alérgicos ou asmáticos. Desconhece-se qual o impacto se a duração da exclusividade fôr superior a 3 meses.

4. Não há evidência de que atrasar a introdução de alimentos suspeitos (leite, peixe, ovos, avelãs, etc) para além dos 4-6 meses reduza o risco de alergias a este alimentos em pessoas predispostas. Para os não-predispostos então, não há qualquer problema.

5- Há provas minimas, quase inexistentes, do benefício dos leites especiais hipoalérgicos, por isso é sensato não os utilizar, já que são extremamente caros. O leite de soja não apresenta qualquer vantagem em relação ao leite artifical "corrente".

6- É importante amamentar quando se introduz o glúten, mantendo a amamentação durante pelo menos 2 meses. Assim reduz-se francamente o risco de intolerância ao glúten.

Portanto, utilizem os ingredientes para as refeições familiares e reduzam-nos a uma consistência que o vosso bebé consiga gerir. Evitem o sal e o açucar, que são totalmente desnecessários.

Aproveitando este momento de descoberta, podem-se introduzir hábitos mais saudáveis na família. Procurem variar os alimentos, evitar alimentos pré-confecionados porque quanto menos manipulação há, mais nutritivo se mantém o alimento.

Uma opção pode ser a de fazer as papas em casa. Cozer arroz, ou lentilhas, ou farinha de milho é relativamente simples, rápido, e seguramente mais nutritivo do que usar uma farinha alterada de forma a ser solúvel, somo são as das papas de bebé.

No caso de quererem misturar leite na papa, como é tradicional mas não obrigatório fazer-se, pode usar-se leite materno expresso ou, para as mães que não amamentam, leite artificial.

Uma última observação: respeitem os tempos e os gostos dos vossos bebés. Ofereçam comida saudável, mas deixem-no escolher a quantidade e mostrar as suas preferências.

Se se sentirem angustiadas ao seguirem esta sugestão, conversem com o pai, com amigos, desabafem, mas não forcem a criança a comer. A saciedade é um processo fisiológico e endócrino que pode ser alterado por esta prática muito difundida. Numa sociedade a braços com uma epidemia de obesidade e restante doenças associadas, temos um papel importante em evitar que os nossos filhos percam as suas capacidades fisiológicas de auto-regulação.

Boa aventura!

Mónica Pina
Médica, Consultora de Lactação, Moderadora da La Leche League

2 comentários:

Amor & Amamentação disse...

Adorei conhecer o blog... parabéns pelos posts!

Unknown disse...

Ameeei esse post. Valeu demais!!!

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